sábado, 24 de novembro de 2012

Maniqueísmo








Sua ida não me estimulou, aos pés de alguma estrela, eu deito e te espero
Nome doce feito o ar, feito o cheiro de mel viajando numa tarde ensolarada
Onde as crianças brincam, correm na rua que não é asfaltada
E riem, como se a pureza do mundo, fosse ali, com os seus pais vendo tudo.
Um domingo chuvoso me pegou de surpresa
Mas a melancolia de um dia chuvoso
É a alegria de um coração, que tem na sua mesa
Um presente tão bonito, e um passado tão orgulhoso.
Pois bem, eu continuo dizendo que não gostei de quando você partiu
Eu quis ser maniqueísta e atribuir a culpa ao bem ou ao mal
Como um passista que descobre que não precisa se esconder na fantasia
Mas que ainda não sabe sorrir quando vai embora o carnaval...
Inverno chato esse
O corpo esfria tanto e esfria mais ainda os
Meus segredos mais tropicais
Estação de trem de gelo que descongela as feridas.
O sol não me estimulou, eu quis me perder dentro de seus canaviais
Quis abrir um guarda-chuva pra me proteger
De quê? Não sei direito
Talvez da chuva ou de seus medos banais.
A chuva não me conquistou, e eu quis viajar para além de seus olhos
Sinto que você vai fazer isso primeiro
Por quê? Não sei direito
Talvez por causa da vida, que a cada dia viaja com sol e chuva
E nos faz ver o quanto somos santos e, ao mesmo tempo, infernais.




Rívison                     21/04/2007      03:40 am

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Poema de um insone online no Facebook



Precisamos reerguer os nossos passos,
Encontrar os caminhos, por vezes, disfarçados
Iluminar a nossa própria luz quando enfraquece
Precisamos sentir os pés descalços...
Nossa própria luz, às vezes, se esquece
Que possui um gerador acoplado e frágil
Acoplado a todos que nos cercam
E frágil, pois sozinha não brilha forte;
E por mais que façamos força para entender esse universo ágil
Onde tudo gira e as lembranças nos refazem
Precisamos entender que tudo vai embora muito rápido
E o que fica na memória são apenas os destaques.
Precisamos entender que o sol não adormece
E que nós adormecemos em cada despedida
Em cada desilusão, em cada difícil momento
Fechamos os olhos e damos as mãos para a própria partida,
Que parte tomando forma no corpo e em pensamento
Por não saber como fica tatuado de forma errada um adeus
E por já saber que o minuto de agora não é o minuto que vivemos
Abençoado seja o tempo, e breve seja a ferida.
E que fique registrado o paradoxo humano:
Que breve seja a razão, mas que sejam eternos os sentimentos.


Rivi.

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Números


Nós somos feitos de números
Segundos, minutos e horas. Dias, meses e anos
E ainda que nada vá embora
Tudo acaba perdendo o encanto.
Deus não tem pena dos sem-alma
mas não pode fazer nada contra eles
nem a favor
não se pode controlar a sede daqueles que sabem controlar o amor.
Um homem sonhou em conquistar o mundo
Parou em cima da montanha, respirou fundo
Sentiu o vento passar entre os dedos, mas não gritou
Conquistou tudo e ficou mudo.
Maria, ah, Maria, se você não tivesse nome
Eu, facilmente, te chamaria de alegria
Porque é capaz de descer um anjo quando você ri
E iluminar a mim e a todos que sentem alguma fome.
Queria entender a matemática dos astros
Queria seguir o caminho que conduz à melhor ética
Mas os anos acabam nos deixando chatos
E uma população hippie acaba virando uma população cética.
Segundos para ter paciência
Minutos para ter compaixão
Horas para possuir inteligência
Dias para acordar cedo no inverno.
Meses para uma gestação
Anos para amar do modo certo
Séculos para curar um coração.
E assim continuamos nossa caminhada nesse deserto
Chamado vida, que tanto nos impulsiona para todos os lados
O que tem de mal viver dez anos a mil?
É melhor do que viver mil anos a dez e terminar como um velho cansado.
E o que é a velhice, senão números nas costas?
O que é ficar velho, senão perder o brilho nos olhos?
Então eu vos digo, amigos, a velhice é para os fracos
Os fortes não envelhecem, apenas ganham maturidade.
E nós continuamos feitos de números
De dias, meses, horas e anos
Se você quiser, nada vai embora
E, com sabedoria, tudo mantém o encanto.
O alicerce da paz é a vontade de ser feliz
Feliz como Maria, que ri para os anjos
Feliz como quem conquista tudo e emudece
Feliz como quem vê como um presente as passagens dos anos.

Rívison - 2012

domingo, 1 de julho de 2012

Apocalipse Nerd.

São 2h52 da madrugada. Estou no meu quarto, no térreo de um apartamento, mexendo no computador. Lá fora, o mundo parece está acabando. Mas mantenho minha calma. Ouço gritos vindo lá de fora. Explosões. Tudo isso do nada. Antes era o mais completo silêncio. E, para completar, gritos ensurdecedores que parecem de bestas feras. Mas, para mim, parece que tudo não passa de abstração. Parece que tudo está saindo da caixa de som do computador. Algo bateu na janela do meu quarto. Ouço uma voz desesperada pedindo para abri-la; mas não quero. Estou feliz na minha internet, sentado. Vejo até a janela sacudir sem sucesso, ela não abre. Me levanto dessa cadeira desconfortável, alongo a coluna e ponho o ouvido encostado na janela. Um voz fraquinha tenta gritar "abre!". Não. Meu mundo está em paz. E dane-se se o mundo lá fora está explodindo! Acho que a pessoa foi embora. Um barulho ensurdecedor parece cortar os céus. Seria um avião caindo? Mais pessoas gritam. Gritos? Muitos gritos. Parece show do Iron Maiden, aquela plateia fazendo um coral. Gritos! Não é um coral, são gritos de medo. Alguém passa correndo do lado do meu quarto gritando "Corre, não olha pra trás! Corre!". Ouço passos de gente apressada. Muita gente. Sinto um leve tremor no chão. O tremor está aumentando. Ouço um barulho de água. Será que esqueci a torneira aberta? O barulho de água vai ficando mais forte. Chuveiro? Ouço um barulho de correnteza bem do lado de fora da minha janela. A água começa a invadir meu apartamento pela porta da frente. Não sabia que a praia podia chegar até aqui. Ou isso ou foi um mini tsunami, porque a água não passa de vinte centímentros do chão. Tudo bem, a tomada do meu computador é mais alta do que isso. E aqui dentro do quarto não posso ser levado pela correnteza. Ouço pessoas gritando e caindo na água forte lá fora. Ouço outro barulho enorme rasgando o céu. Outro avião? Sei lá. A água chega até a ser agradável nos meus pés, mas subo as pernas para a cadeira, com medo de um choque. Sempre calmo e indiferente. Agora me assustei. Que barulho é esse? De repente, todo mundo se calou. Só ouço o que parece ser algo muito grande cruzar os céus. Caiu. Meu computador balançou e minha internet desconectou. Outro avião? A lâmpada do meu quarto começa a falhar. O chão treme mais forte. Pessoas gritam o nome de Deus lá fora. Pessoas gritam chorando o nome de Deus. Pés apressados na água, muitos. Minha janela fechada não me permite ver seus rostos. Devem estar tristes, no mínimo. Ouço mais água vindo. É um barulho de chuva que parece aumentar a cada milésimo. Outra correnteza? Ouço a água bater contra meu apartamento. O prédio treme. Minha janela abriu. A água passou a altura da tomada. Sistema desligado.



Rívison  17/04/2011

domingo, 10 de junho de 2012

Selvagem Coração

O que vem fácil, vai fácil
O que vem "suado" demora ou fica pra sempre
Essa é a nossa filosofia de vida
Que serve para qualquer modelo econômico
Seja você capitalista ou comunista
É só dar combustível aos seus sonhos;
O mundo é cretino, nós sabemos
Tão hipócrita que chega a dar nojo
Mas encare essa realidade
E vença o sistema de dentro pra fora.
Tenha dinheiro... Mas não seja boçal.
Tenha poder... Mas seja humilde.
Tenha respeito... Mas dê gargalhadas.
Tenha um ótimo emprego... Mas não humilhe.
A melhor maneira de empregar sua fortuna
É construindo as bases para a geração futura,
A melhor maneira de demonstrar poder
É melhorando vidas,
A melhor maneira de ganhar respeito
É ser olhado como um cão guia...
Um cão que guia uma geração cega
Com apenas vontade explodindo no peito
Com os pés descalços, na neve fria
Mostrando aos que não enxergam o que deve ser feito.
O que vem fácil, vai fácil
O que exige sacrifício demora ou fica pra sempre;
Seja você apolítico ou anarquista
É só dar impulso aos seus desejos
Fizeram da realidade um jogo sem muitas vidas
Testaram a bomba H e abriram uma grande ferida.
Mas nós sabemos que isso não vai durar
É só questão de tempo para darmos atenção
Ao que importa de verdade, como as aves, os rios
As árvores e a natureza do nosso selvagem coração.


Rívison  25/06/2011