quinta-feira, 30 de junho de 2011

Se tivéssemos a vida eterna


Se tivéssemos a vida eterna
E as coisas também durassem para sempre
O tempo não existiria.
O tempo é apenas uma desculpa
É a areia na ampulheta, a contagem regressiva
Que se inicia no instante do nascimento
E nos persegue por toda a vida.
E a velhice nada mais é do que células gastas
Vidas microscópicas que nos habitam sendo mortas
Por um processo evolutivo frio que não acaba.
Nós somos um conjunto dessas vidas microscópicas
Que morrem e vivem dentro de nós, toda hora
Mas, no espelho, existe apenas a gente.
Se tivéssemos a vida eterna
E as coisas durassem para sempre
Não existiria espaço pra tanta gente
Não existiria chão para tantas pernas
Não existiria esperança de idéias novas.
E então envelheceríamos por dentro
(Mas seríamos belos por fora)
E nos tornaríamos tão máquinas
Quanto uma torradeira ou um avião
E se esgotaria a fonte dos sentimentos.
A morte que nos leva é injustiçada
A morte é a deusa dos arrependimentos
Quem morre fecha os olhos para essa estrada
O pulso estanca, as pernas deitam e o corpo pára
Mas, quem sabe, não abre os olhos em outro firmamento?
Enquanto isso, da terra surgem novos homens
Mulheres, animais, plantas e peixes
Moldados pelo sol e por novos ideais
Que caminharão numa Terra que é pequena para eles
Porque possuem genes mais fortes do que seus ancestrais.
E, desse jeito, meio sem jeito, a via-láctea dá à luz
A novos conquistadores de qualquer coisa
A pobres e ricos, mas isso nem importa
Porque, no sangue, todos tem a mesma fortuna
E todos vieram da mesma força.
Se tivéssemos a vida eterna
E as coisas durassem para sempre
Que chato seria.
A felicidade humana não teria chance
Pois o tempo não esgotaria
Seríamos jovens ultrapassados e rancorosos
Sentiríamos nossos corpos pesando como uma âncora
(Afundando nossas essências e nos deixando apenas os ossos)
(Sustentando nossa aparência e nos deixando menos fortes)
Seríamos cientistas idosos pesquisando nossa cura:
A morte.


Rívison - 2011

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Vampiro

Eu ousei viver no escuro
Há tempos não sei o que é o dia
Eu virei um ser noturno
Que liga a TV e demonstra apatia
Todos dormem, enquanto eu janto
A geladeira é melhor de madrugada
Abro a janela e culpo as estrelas
Elas me seduziram e hoje eu sou um nada
A lua parece sorrir, quando cheia
E os cães uivam nessa noite estrelada
A rua vazia é a passarela do vento
Que desfila ventanias e suja de folhas a calçada
Ninguém passa nessa rua
Só o vigia que também não dorme
Mas eu sinto que ele passa com medo
Com a moto acelerada, jogando contra a própria sorte
O meu quarto, à noite, vira um caixão
Onde o ar esfria e a noite entra calada
E me oferece companhia, toca a música da solidão
Mas meus ouvidos lutam contra essa serenata
O silêncio me ensurdece, a noite vence
Mas não estou sonolento e permaneço intacto
Talvez, tudo que eu precise seja um banho quente
Tento me lembrar onde e quando fiz esse pacto
Que me transformou em um ser demente
Cheio de ódio e rancor congelados
Mas meu amor também se faz presente
Até quando meus caninos crescem e em sangue me desfaço
Não posso voar e o alho não me machuca
A estaca não me mata e a cruz não me assusta
A realidade é diferente, porém sou imortal
A vida eterna, na verdade, é uma eterna luta
Sou sarcástico, ambicioso e malvado
Mas também sou bondoso, e algumas até me acham sexy
Sou a contradição em pessoa, sou o DNA alterado
Mordo você tão rápido que você nem percebe
São quatro e quarenta e cinco da manhã, e o sol vem surgindo
Abro a porta da varanda na esperança de não me sentir só
A nossa estrela mais próxima faz raios belíssimos
A praia fria denuncia um amanhecer em Maceió
Recolho meus pertences, a noite sai do meu quarto
Recobro a consciência, meus olhos já estão fechando
O sono me convida enquanto o dia começa agitado
Eu escapo dessa maldição quando caminho pelos sonhos.


2011 - Rívison