domingo, 27 de março de 2011

Moça

Todos os amores giram em torno disso, moça
Os bebês não chegam da cegonha
E não me culpe por quebrar tabus
Onde a vergonha dominava.
Nossos vinte e poucos anos de astúcia
Na tela de uma televisão
Parecem mentira porque não somos imagens
Somos som e sensações

Alguns amores giram em torno de carros importados, moça
Afinal, os bebês não se alimentam de vento
E depois que o ser humano enjoa, moça
O divórcio é mais caro do que o sentimento.

Alguns amores não deviam se chamar amor, moça
Porque não existe lembrança ou uma boa saudade
Só existe insatisfação, dinheiro e falta de esperança
Porque os bons olhos para escolher o seu par
Foram sujos pela lama do pudor e da maldade.


2009      Rívison

domingo, 20 de março de 2011

Rock

Por mais que morram, por mais que se calem
Ainda que sofram, e o medo os cerquem
Os gritos serão ouvidos, mesmo no silêncio
O espírito mantém vivo, quem se foi faz tempo.
Por mais que se droguem, por mais que bebam
E vivam em um mundo diferente, outra realidade
Enquanto quebram seus instrumentos, embriagados
O espírito mantém vivo, quem sumiu da cidade.
E nós ainda bebemos rock, essa bebida antiga
E nós tomamos um só gole dessa bebida venenosa
Esse whisky de 100 anos precioso é ingerido com gosto
Esse veneno que não mata, esse veneno que dá energia.
Por mais inconsequentes que sejam, ainda são deuses
Pois deuses são aqueles que podem ver além da palma da mão
Somos deuses quando queremos, e reles mortais no trabalho
Endeuse uma frase bem dita e imortalize um coração;
Eu vejo jovens de 80 anos caminhando na praia, sorrindo
E vejo idosos de 18 anos chorando pelo canto, sem motivos
A vida passa tão rápido quanto os quadris de Elvis
O espírito mantém vivo o que passava naquele filme antigo.
E nós ainda bebemos rock, essa bebida rara
E nós tomamos um só gole que não vem de nenhuma gravadora
Esse drink é servido para todos os jovens, até 90 anos
Que ainda acreditam que possuem poder e força criadora.



Rívison       2011

quinta-feira, 10 de março de 2011

Walter Benjamin




Hei, Walter Benjamin, você estava certo
Essa reprodutibilidade é um saco
Eu pareço me importar de frente à TV
Minha adrenalina sobe tão facilmente
Mas só são imagens que nem sabem quem eu sou
É apenas uma caixa morta e cheia de luz
Eu pareço me importar ouvindo algum CD
Minha mente viaja para tão longe
Mas aquela voz é tão eletrônica quanto minha solidão
Aquela voz é tão artificial quanto este coração.
Hei, Walter Benjamin, você estava certo
Essa reprodutibilidade é um saco!
Eu pareço me importar diante da grande rede
Que de grande só tem mesmo a fortuna publicitária
A internet chegou, mas ninguém mata essa sede
A cultura vive e morre e permanece estagnada
Eu pareço me importar diante dessa reprodução
Que de “tão sem útero” já tem cara de velha
A juventude desligou o botão do senso crítico
A reprodutibilidade resume até tristeza em festa.
Eu pareço me importar diante de uma fotografia
Um sorriso eternizado, e uma agonia latente
Aquela imagem não condiz mais com a atual alegria
Pois tem mais cara de passado do que de presente

[Eu preferia ser contemporâneo de Aristóteles
Sem tecnologia, mas com aura verdadeira.
Eu preferia mil vezes ser um guerreiro espartano
Do que morrer de tédio neste combate urbano].


Rívison       2011