quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Pessoas

Queria saber de onde vem a maldade do coração
Sempre vejo na televisão, essas guerras sem razão
E a humanidade segue todo o tipo de religião
Mas fora da igreja o que se prega é a traição;
E vejo pessoas doentes e crianças nas ruas
Sempre você acha que assim nunca vai ser a sua
Então você coloca a sua gravata e o seu paletó
Pra ficar como quer a sociedade; pra ficar mais uma vez só;
Pessoas, então, fazem suas vidas
Sem feridas, mas com mágoas tão profundas
E parecem viver num caos, mas o caos vira o céu de repente
Quando os problemas não estão mais na nossa frente.
Cada um diz para o outro: “você não é capaz”
Só pra passar na frente, deixar mais um pra trás,
Isso logo aprendemos a chamar de concorrência
Levando em conta a falta de humildade, damos outro nome: violência;
Eu vejo a esperança nos olhos de quem me maltrata
Eu vejo o choro da criança nos olhos de alguém que mata
O monstro, então, se levanta da sua morte sepultada
E faz você praticar o ódio, que cultivava em casa;
Pessoas, então, fazem suas vidas
Sem feridas, mas com mágoas tão profundas
E parecem viver num caos, mas o caos vira o céu de repente
Quando os problemas não estão mais na nossa frente.
Não é possível dizer que você não está errado,
Mas querer sempre estar certo às vezes é um caminho abstrato
Deixem que sua bondade e coragem comandem suas vidas
Elas vão com que as bobagens dos seus erros nunca mais se repitam.

Rívison - 2000

Sim, essa foi no auge dos meus 15 anos.  Há 11 anos atrás, direto do túnel do tempo.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Preposição




Saudamos a todos no raiar de um novo dia
Com sorrisos falsos e uma agonia escondida
Celebramos nossa ignorância cristalizada em costumes
Que costumamos chamar de sabedoria
Tal sabedoria joga petróleo no mar
Declara criminoso quem morre de fome
Nos torna cada vez mais estressados e insones
Não conjuga de forma correta o verbo amar.
Mas a tensão é maior quando chega o meio-dia
E o calor esquenta os paletós abafados
Os homens engravatados que servem ao Estado
Que não servem à população, e sim à economia.
Saudamos a todos com um "boa tarde" falso
Que beira ao cinismo, pois é difícil achar algo bom
 Essa sociedade já canta as regras fora do tom
Essa sociedade se atropela com os passos apressados.
Forte é aquele que quer mudar a realidade
Covarde é aquele que quer mudar de realidade
Eis toda a diferença que uma preposição faz.
Saudamos o vizinho com um "boa noite" sorridente
Apesar de preguiçoso, pois já aparentamos o cansaço
Nos preparamos para o sono até o cantar do galo
Mas já dormimos há muito tempo, somos todos uns dementes;
Demenciando nossa alegria fingida e nossas falsas conquistas
Onde um salário mínimo vale mais do que a saúde
Quem distribui o dinheiro não faz nenhum ajuste
Quem recebe o dinheiro aceita-o com cara de parasita.
Mas parasitas mesmo são os que sugam nossos esforços
Os que não dão educação, mas dão televisão e pornografia,
Os que nos alegram com baixarias,  é o circo e o pão
E não enxergam a lágrima que cai dos nossos olhos.
Forte é aquele que quer mudar a realidade
Covarde é aquele que quer mudar de realidade
Essa é toda diferença que uma preposição faz.
Devemos nos unir, para, um dia
Nossa ignorância não ser nosso próprio capataz.



Rívison - 2011

domingo, 18 de setembro de 2011

A Idade da Inocência





Se apoie sempre no meu ombro e me conte seus segredos mais secretos
Olhe pra mim com sarcasmo e me cure desses delírios
Chame algum palavrão e me diga o que há de novo ou velho
Uma amizade deve servir para nós conservarmos nosso brilho
Um brilho adolescente, apesar da idade adulta
Um brilho incandescente que sempre nos serviu
Uma amizade, até distante, nos ajuda
Pois nos olhos do amigo encontramos uma força gentil
Que nos acolhe nos momentos mais ásperos
Que ri nos momentos mais ridículos
Que faz de um apartamento um lugar eterno
Que faz de um desconhecido, o nosso grande ídolo
Se apoie no meu ombro e me conte sobre seus namorados
Isso tudo em um ônibus a caminho de casa
Tal casa que já não consta mais a nossa presença
Somos nômades de lugares, mas não de sentimentos
Corra pelos corredores daquela universidade
Mas não corra fisicamente, e sim em pensamento
Corra por eles até os seus 100 anos
Lembre da idade da inocência e dos descobrimentos
Lembre das conversas exageradas e sem preocupações
Lembre-se dos tempos que pensávamos ficar ricos
Mais riqueza existe em nossos corações
Que nos dão verdadeiras recompensas apenas em troca de sorrisos
Eu levo você em um cofre bem forte
Que está fora do domínio do capitalismo
Que também não é socialista, mas é uma flor dentro de mim
Eu levo você e por isso não preciso da sorte.
Eu levo você por uma estrada sem fim.



Obs.: Para a minha amiga Larissa Lins, que desde o século 19 me pede um texto.




Rívison - 2011

domingo, 28 de agosto de 2011

Oração

Se a ansiedade  é tua amiga
Aproxima os laços dessa amizade
Oferece um bom vinho com veneno
E vê-la morrendo lentamente;
Se o ódio é teu companheiro
Agarra com força essa lealdade
Propõe a ele uma viagem diferente
E o afoga num oceano cheio de vida;
Se o vício, da sua vida, faz parte
Dá de presente a ele uma casa nova
Um lugar confortável como um ventre
Incendeia e faz o vício arder em desespero;
Se o medo anda de mãos dadas contigo
Leva-o para um salto de paraquedas
Para um beijo roubado, para combater a polícia
E quando ele chorar, empurra-o para a cova;
Se o desânimo sempre te enche de sonífero
Não durma, pois não haverá sonhos
Não seja iludido por esse trapaceiro
Vença-o correndo por toda uma orla.
Se o amor habita sua pessoa
Verifica se este amor é imaturo
Porque, se for, não é uma coisa boa
Pois faz tudo parecer alegre e vermelho;
O amor imaturo entorpece os sentidos da alma
Faz você se sentir bem enquanto te afoga na lama
Te faz sorrir enquanto te mata com calma
Te faz ver outra pessoa no reflexo do espelho;
O amor imaturo causa revoluções precipitadas
Decepções,
Animais presos em viveiros
Moças chorando na beira de uma estrada.
Mas quando o amor amadurece surge um tipo de super-homem
Alguém que guia o povo como um cão guia o cego
Alguém que não promete amor eterno à moça
Mas é fiel a este amor até o instante que o amor some.

Rívison

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Depois da conquista da Lua



Vamos pensar nas questões futuras
Se você matasse um clone seu, seria assassinato ou suicídio?
Esses anos passam rápidos, e para nós é uma tortura
Se chegassem alienígenas, nos dizimariam, como europeus fizeram com índios?
Vamos pensar nas questões futuras
Se eu viajasse no tempo e separasse meu avô da minha avó
Eu chegaria a existir ou a voltar no tempo para causar tamanha desunião?
Esses meses passam rápidos, e nós nos sentimos sempre sós
Se nos tornarmos cibernéticos, vamos colocar um motor no lugar do coração?
Vamos pensar nas questões futuras
Do que adianta mandarmos sondas para as luas de Saturno
E descobrirmos um terreno fértil e sólido?
Do que adianta conquistar Marte
Se nem sabemos conquistar a afeição do próximo?
Vamos pensar nas questões futuras
Se minha tataraneta quiser um animal de estimação
Ela comprará um cachorro robô?
Isso é uma tremenda questão ética:
Até que ponto a inteligência artificial substitui o amor?
Vamos pensar nas questões futuras
Acaso a cura para AIDS aparecesse, acabaria o preconceito?
O sexo deixaria de ser visto como um tabu para os padrões morais?
Essas décadas são todas iguais, guerras glorificam nossos feitos
Existirá uma sociedade consumista capaz de viver em paz?
Vamos pensar nas questões futuras
Vamos pensar nos nossos filhos e netos
Mas chegaremos a ter gerações futuras, com passos de elefantes?
Destruindo, com poder de fogo exagerado, pessoas puras;
Talvez, um dia, o homem mais rico se conscientize que ele não passou de um inseto
Comparado com tudo que existe e nós não podemos ver
Pois, tais coisas, a mente humana classifica como absurdas,
E este rótulo só é retirado
Quando o inimaginável passa a acontecer.


Rívison - 2011

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Se tivéssemos a vida eterna


Se tivéssemos a vida eterna
E as coisas também durassem para sempre
O tempo não existiria.
O tempo é apenas uma desculpa
É a areia na ampulheta, a contagem regressiva
Que se inicia no instante do nascimento
E nos persegue por toda a vida.
E a velhice nada mais é do que células gastas
Vidas microscópicas que nos habitam sendo mortas
Por um processo evolutivo frio que não acaba.
Nós somos um conjunto dessas vidas microscópicas
Que morrem e vivem dentro de nós, toda hora
Mas, no espelho, existe apenas a gente.
Se tivéssemos a vida eterna
E as coisas durassem para sempre
Não existiria espaço pra tanta gente
Não existiria chão para tantas pernas
Não existiria esperança de idéias novas.
E então envelheceríamos por dentro
(Mas seríamos belos por fora)
E nos tornaríamos tão máquinas
Quanto uma torradeira ou um avião
E se esgotaria a fonte dos sentimentos.
A morte que nos leva é injustiçada
A morte é a deusa dos arrependimentos
Quem morre fecha os olhos para essa estrada
O pulso estanca, as pernas deitam e o corpo pára
Mas, quem sabe, não abre os olhos em outro firmamento?
Enquanto isso, da terra surgem novos homens
Mulheres, animais, plantas e peixes
Moldados pelo sol e por novos ideais
Que caminharão numa Terra que é pequena para eles
Porque possuem genes mais fortes do que seus ancestrais.
E, desse jeito, meio sem jeito, a via-láctea dá à luz
A novos conquistadores de qualquer coisa
A pobres e ricos, mas isso nem importa
Porque, no sangue, todos tem a mesma fortuna
E todos vieram da mesma força.
Se tivéssemos a vida eterna
E as coisas durassem para sempre
Que chato seria.
A felicidade humana não teria chance
Pois o tempo não esgotaria
Seríamos jovens ultrapassados e rancorosos
Sentiríamos nossos corpos pesando como uma âncora
(Afundando nossas essências e nos deixando apenas os ossos)
(Sustentando nossa aparência e nos deixando menos fortes)
Seríamos cientistas idosos pesquisando nossa cura:
A morte.


Rívison - 2011

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Vampiro

Eu ousei viver no escuro
Há tempos não sei o que é o dia
Eu virei um ser noturno
Que liga a TV e demonstra apatia
Todos dormem, enquanto eu janto
A geladeira é melhor de madrugada
Abro a janela e culpo as estrelas
Elas me seduziram e hoje eu sou um nada
A lua parece sorrir, quando cheia
E os cães uivam nessa noite estrelada
A rua vazia é a passarela do vento
Que desfila ventanias e suja de folhas a calçada
Ninguém passa nessa rua
Só o vigia que também não dorme
Mas eu sinto que ele passa com medo
Com a moto acelerada, jogando contra a própria sorte
O meu quarto, à noite, vira um caixão
Onde o ar esfria e a noite entra calada
E me oferece companhia, toca a música da solidão
Mas meus ouvidos lutam contra essa serenata
O silêncio me ensurdece, a noite vence
Mas não estou sonolento e permaneço intacto
Talvez, tudo que eu precise seja um banho quente
Tento me lembrar onde e quando fiz esse pacto
Que me transformou em um ser demente
Cheio de ódio e rancor congelados
Mas meu amor também se faz presente
Até quando meus caninos crescem e em sangue me desfaço
Não posso voar e o alho não me machuca
A estaca não me mata e a cruz não me assusta
A realidade é diferente, porém sou imortal
A vida eterna, na verdade, é uma eterna luta
Sou sarcástico, ambicioso e malvado
Mas também sou bondoso, e algumas até me acham sexy
Sou a contradição em pessoa, sou o DNA alterado
Mordo você tão rápido que você nem percebe
São quatro e quarenta e cinco da manhã, e o sol vem surgindo
Abro a porta da varanda na esperança de não me sentir só
A nossa estrela mais próxima faz raios belíssimos
A praia fria denuncia um amanhecer em Maceió
Recolho meus pertences, a noite sai do meu quarto
Recobro a consciência, meus olhos já estão fechando
O sono me convida enquanto o dia começa agitado
Eu escapo dessa maldição quando caminho pelos sonhos.


2011 - Rívison

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Depressão

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Essa depressão me arruína
Essa falta de atenção é uma desgraça
Eu vejo idiotas ganhando fácil a vida
Me conformo a pensar que esse mundo é uma farsa;
Um pai estava passeando com seu filho
Por uma rua bela e deserta
De repente, ele escuta o barulho de um tiro
Acertou o seu filho em uma das pernas
E é esse o mundo que vivemos
Essa é a realidade alegre e triste
A beleza é tão insegura quanto o medo
De viver uma ilusão que não existe;
A cada dia que passa eu me convenço
Que as horas me trazem um sofrimento interno
São ondas do Tártaro, mas eu chego a conclusão
De que, para ser iluminado, passa-se primeiro pelo inferno.
Essa depressão me arruína
Fico em casa escutando Noel Rosa
Também escuto Iggy Pop e Jonnhy Cash
Ninguém me dá um conselho que preste;
Eu vejo idiotas ganhando fácil a vida
Mas não, não vou entrar nessa jogada
É melhor conservar meu corpo sem feridas
Do que dar uma cartada muito errada;
A cada hora que passa eu me convenço
De que o amanhecer é sádico e belo
A luz escurece o que eu ainda tinha
Para ser iluminado, se vai primeiro ao inferno.


2011 - Rívison

sexta-feira, 20 de maio de 2011

21 de maio de 2007

Segunda-feira, 21 de maio de 2007
Não é nenhuma data comemorativa
Talvez seja em alguma outra parte do mundo
Pois bem, isso não vem ao caso;
Daqui a pouco, irrompe outro dia
Para aterrar esse enorme infortúnio
O sol vai rodar e queimar o asfalto
A luz vai beijar o que você veste.
Uma luz que vai embora tão cedo
No raiar de um novo luar
E dizem que esse dia não é importante
21 de maio de 2007;
Não é nenhum feriado nacional
Mas também não é o fim do mundo
É um dia como qualquer outro
"Qualquer outro", deveríamos tratar assim um dia?
Um dia é único e isso já basta
Para ser seu feriado mundial
Um dia na sua vida, uma vida Alaska
Fria, em pleno país tropical.
Perdoe-me se toquei em alguma ferida
Perdoe se seu médico não lhe receitou algo
Mas, ainda assim, eu permaneço escutando as batidas
Dentro de seu peito
Mas, ainda assim, eu permaneço escutando e elas dizem
Que você terá que viver esse 21 de maio
Como se fosse 22 de setembro no hemisfério sul
Como se fosse primavera e o céu estivesse azul
Mas há quem goste de frio, e é quente por dentro
Mas você parece não compreender a mensagem que o 21 de maio origina
Você é frio por dentro e quente por fora
E esse dia, como amanhã e depois, terá que ser vivido
Antes da última hora ir embora.



Rívison - 21/05/2007

Obs.: Tinha esquecido dessa. Revirando meu arquivo de escritos, a encontrei. Não tinha planos de atualizar o blog tão cedo. Mas diante de tamanha coincidência, e com tanto fanatismo religioso falando do fim do mundo na data de 21 de maio de 2011, não resisti em atualizar. "Mas também não é o fim do mundo". Não acredito em coincidências, mas às vezes acontecem...

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Pequeno Manual da Coragem



A riqueza é pra poucos
A esperteza é pra loucos
A beleza é um insulto
A pobreza é pra muitos
A coragem é pra todos
Mas poucos têm coragem de ter
A grandeza é para aqueles
Que gritam mais alto e denunciam este esgoto.
Vivemos em um inferno com precedentes
Vivemos entre guerras santas sanguinárias
Pensamos que somos sobreviventes
Mas não vivemos, só apanhamos nessa tortura diária.
Fomos condicionados a não reclamar
Fomos programados pelos 'mass media'
Ficamos felizes com um aparelho celular
Mas não fazemos nada para quebrar essa alegria fingida.
Cadê a riqueza? É pra poucos
A fazenda só pertence a um fazendeiro.
Mas é muita terra para um só homem
Que besteira, o homem se mede pelo dinheiro.
Cadê a esperteza? É pra loucos
Quem não for original ganha título de esperto
Quem é original é denominado perigoso
E assim "evoluímos", com problemas em nossos cérebros.
Cadê a beleza? É um insulto
Aquela atriz é só bonita, e não é talentosa
Para os pseudo críticos, a beleza invalida a inteligência
Mas o preconceito invalida tais opiniões neuróticas.
Cadê a pobreza? É pra muitos
Para essa população faminta e deseducada
A deseducação é o lucro dos que a domina
Sem pensamento crítico, fica fácil comandar a massa.
Cadê a coragem? É pra todos.
Mas é um dom tão raro que é retratado
Nos livros de história, nas páginas dos jornais
São heróis aqueles que têm a coragem de ter (algo mais).


2011 - Rívison

domingo, 24 de abril de 2011

Alice no país das mentiras


Já estou farto dessa vontade sem graça
Dessa indecisão rescisória
Dessa praia cheia de fumaça
Desses dias sem glória.
Já estou farto dessa mentira deslavada
Desses juízes da vida
Dessa mudança climática
Dessa viciante ferida.
Já estou farto desses anos novos
Desse sorriso mascarado
Desses sensatos que são loucos
Desses loucos que não estão errados.
Já estou farto desses programas de auditório
Desse país embriagado
Desses aplausos simplórios
Desse regimento atrasado.
Já estou farto do martelo do tribunal
Que prende a consequência e não a causa
Já estou farto do poder policial
Que não me protege e ainda diz que sou ameaça.
Já estou farto desses hippies caretas
Que só se preocupam com paz e amor
Já estou farto de preocupações repetitivas
Que só espalham alienação e dor.
Já estou farto de ver passar o tempo
E lembrar que ele é rápido e assassino
E lembrar que estou trancado em um apartamento
E sou telespectador da minha vida, apenas a assisto.
Já estou farto de ver passar o tempo
E lembrar que tenho que estudar para "ser alguém"
Se eu ainda não sou "alguém", o que eu sou?
A sociedade não responde essas coisas, não a convém.
Estou farto de ver passar o tempo
E me desesperar procurando um trabalho
Ou pior, perder tempo no birô de um emprego
Enquanto envelheço, me irrito e me desgasto.
Estou farto desse voto obrigatório
E de tudo que me obrigam a fazer
Se a liberdade é um direito fundamental
Então o que é que custa ser você?
Já estou farto desses vizinhos
Desses bairros, dessas cidades, desses estados
Já estou farto desse dinheiro mesquinho
Já estou farto desse planeta envenenado.
E você
De que está farto?




2011 - Rívison

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Rede Social




O que eu vejo são frases de Clarice Lispector
Ilustrando descrições de retardados que não a compreendem
Apenas acham interessante, e se julgam tão profundos
Mas têm a alma mais rasa que o chão.
O que eu vejo são frases de Oscar Wilde
Ilustrando descrições de retardados que não sabem quem ele foi
Apenas acham interessante, e se julgam tão sábios
Mas têm a inteligência menor do que um feijão.
O que eu vejo são frases de Bob Marley
Ilustrando descrições de retardados que se acham revolucionários
Porque escutam reggae ou defendem a maconha
São revolucionários de boutique e não sabem o que é revolução.
O que eu vejo são frases de Chico Buarque
Ilustrando descrições de retardados que se acham cults
Querem ser retrôs, mas não existe nada mais patético
Do que um pseudo-intelectual que não vê além da própria visão.
O que eu vejo são fotos sorridentes, convidativas
Mostrando os rostos de uma geração que se acha feliz
Apenas acham, porque, na verdade, felizes eles não são
Usam a tecnologia para disfarçar as feridas do coração.
O que eu vejo são fotos artísticas, fugindo do clichê
Mostrando o que passa na cabeça de alguém "pós-moderno"
Tão modernos e estranhos que chegam a provocar náusea
Fogem do clichê, mas não fogem de usar uma máscara.
O que eu vejo são falsos ideais, de gente fingida
Palavras escritas para causar boa aparência
Fotos tiradas para pertencerem a algum grupo ou família
O que eu vejo é uma geração que se esqueceu da própria essência.
Citemos frases de personalidades e intelectuais
Mas com respaldo, com propriedade, com "algo a mais"
Compreendendo o mundo ao seu redor e não só o próprio umbigo
O que eu vejo é uma geração hipócrita e individualista.
Coloquemos fotos sorridentes e convidativas num dia de sol
Mas coloquemos mostrando quem nós somos, de verdade
Pois o sangue que corre no nosso corpo está dando lugar ao banal
Essa geração só terá alguma chance quando o individual
Finalmente der lugar à universalidade.


Rívison - 2011

Obs.: Queridos(as) leitores(as), caso vocês se identifiquem com algum gosto literário ou musical citado acima, não se sintam ofendidos, não estou chamando vocês de retardados. Eu mesmo sou fã dos quatro artistas citados. Estou alertando para a superficialidade que muitas pessoas andam tratando alguns artistas imortais, só isso. Tenho certeza que essa carapuça não serve a vocês. Abraços.

domingo, 27 de março de 2011

Moça

Todos os amores giram em torno disso, moça
Os bebês não chegam da cegonha
E não me culpe por quebrar tabus
Onde a vergonha dominava.
Nossos vinte e poucos anos de astúcia
Na tela de uma televisão
Parecem mentira porque não somos imagens
Somos som e sensações

Alguns amores giram em torno de carros importados, moça
Afinal, os bebês não se alimentam de vento
E depois que o ser humano enjoa, moça
O divórcio é mais caro do que o sentimento.

Alguns amores não deviam se chamar amor, moça
Porque não existe lembrança ou uma boa saudade
Só existe insatisfação, dinheiro e falta de esperança
Porque os bons olhos para escolher o seu par
Foram sujos pela lama do pudor e da maldade.


2009      Rívison

domingo, 20 de março de 2011

Rock

Por mais que morram, por mais que se calem
Ainda que sofram, e o medo os cerquem
Os gritos serão ouvidos, mesmo no silêncio
O espírito mantém vivo, quem se foi faz tempo.
Por mais que se droguem, por mais que bebam
E vivam em um mundo diferente, outra realidade
Enquanto quebram seus instrumentos, embriagados
O espírito mantém vivo, quem sumiu da cidade.
E nós ainda bebemos rock, essa bebida antiga
E nós tomamos um só gole dessa bebida venenosa
Esse whisky de 100 anos precioso é ingerido com gosto
Esse veneno que não mata, esse veneno que dá energia.
Por mais inconsequentes que sejam, ainda são deuses
Pois deuses são aqueles que podem ver além da palma da mão
Somos deuses quando queremos, e reles mortais no trabalho
Endeuse uma frase bem dita e imortalize um coração;
Eu vejo jovens de 80 anos caminhando na praia, sorrindo
E vejo idosos de 18 anos chorando pelo canto, sem motivos
A vida passa tão rápido quanto os quadris de Elvis
O espírito mantém vivo o que passava naquele filme antigo.
E nós ainda bebemos rock, essa bebida rara
E nós tomamos um só gole que não vem de nenhuma gravadora
Esse drink é servido para todos os jovens, até 90 anos
Que ainda acreditam que possuem poder e força criadora.



Rívison       2011

quinta-feira, 10 de março de 2011

Walter Benjamin




Hei, Walter Benjamin, você estava certo
Essa reprodutibilidade é um saco
Eu pareço me importar de frente à TV
Minha adrenalina sobe tão facilmente
Mas só são imagens que nem sabem quem eu sou
É apenas uma caixa morta e cheia de luz
Eu pareço me importar ouvindo algum CD
Minha mente viaja para tão longe
Mas aquela voz é tão eletrônica quanto minha solidão
Aquela voz é tão artificial quanto este coração.
Hei, Walter Benjamin, você estava certo
Essa reprodutibilidade é um saco!
Eu pareço me importar diante da grande rede
Que de grande só tem mesmo a fortuna publicitária
A internet chegou, mas ninguém mata essa sede
A cultura vive e morre e permanece estagnada
Eu pareço me importar diante dessa reprodução
Que de “tão sem útero” já tem cara de velha
A juventude desligou o botão do senso crítico
A reprodutibilidade resume até tristeza em festa.
Eu pareço me importar diante de uma fotografia
Um sorriso eternizado, e uma agonia latente
Aquela imagem não condiz mais com a atual alegria
Pois tem mais cara de passado do que de presente

[Eu preferia ser contemporâneo de Aristóteles
Sem tecnologia, mas com aura verdadeira.
Eu preferia mil vezes ser um guerreiro espartano
Do que morrer de tédio neste combate urbano].


Rívison       2011

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Eu adoro sentir ciúmes



Adorei as árvores que você plantou esta manhã
O sol está tão firme, segurado no céu por ondas de calor
E amor e desamor e destinos que não existem
A véspera da saudade chega com muita dor
Baldei os meus preceitos, os medos do amanhã
Os ensinamentos nos levam para batalha
Quando não derrubamos um inimigo, derrubamos a nós mesmos
Talvez esse seja o sentido da vida:
Sempre existe uma falha.
E o sol continua firme em cima de mim
As estrelas ainda brilham em cima de mim
E os corações batem ao meu redor
E eles pulsam dizendo "eu quero ser o melhor"
Pra que isso?
Sempre saem das suas casas para ver a luz do dia
Porém, também, para curtir o brilho da noite
Em noite me transformei
Eu sei que a morte já me tocou, com aquela sua foice.
E tocou a todos, pois todos são culpados
Os únicos inocentes são aqueles mais espontâneos
Doçura que conquista a todos, e que irradia alguma coisa
Os únicos que se salvam,
São aqueles que para os outros são um sol momentâneo.
E o sol continua fervendo em cima de mim
As estrelas brilham, e não são as de Hollywood
Os corações pulsam dizendo "eu adoro sentir ciúmes"
Da minha roupa mal passada
Da minha comida sem gosto
Da minha propriedade privada.
Pra que isso?
Adorei as árvores que você plantou essa manhã,
Mas como você fez por interesse, elas não deram frutos.


Rívison - 2007

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Evolução



A vida é um processo químico
As drogas também são um processo químico
Mas as drogas são proibidas
Porque as drogas degradam a vida
Pois a vida é comandada pelo cérebro;
Desde o unicelular, a consciência comanda a vida
Então sempre existiu um chefe nesse mundo sem nexo
O sol fermenta essa receita em um calor quase cínico
E os pensamentos surgem dando lugar às feridas
Pois a vida é sentida pela dor de não se seguir o caminho certo;
A tal da dor floresce, então, as expectativas,
A dor é necessária, pois tudo precisa morrer para existir vida
Morre o velho e nasce o novo ou morre o novo e nasce o velho
A ordem natural das coisas às vezes é invertida
Pois a vida segue um impulso frenético;
A morte pode promover a ressurreição ou o esquecimento
Depende do que a sua consciência vai promover de sabedoria
A sua herança de valores é mais importante do que a herança genética
Então as decisões devem ser tomadas todo dia
Pois, a cada milésimo, a vida muda e se manifesta;
Nossos irmãos, os dinossauros, aprenderam com a vida
Milhões de anos atacando e se defendendo
Apenas guiados pelo sexo e o interesse na comida
Mas nossos cérebros são mais complexos e nos permitem pensar
O que é e o que há depois da experiência carnal da vida.


Rívison

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Inconstante


Ela apontou aquela arma pra mim
E disse que não seria fácil eu me acostumar
Com seus improvisos, quase sempre insensatos
Aquele jeito doce que contém veneno
Ela falou dos pássaros
Que moravam bem perto do seu casebre
E me deu uma dica:
Aproveite a vida antes que se agrave essa febre
Ela me acariciou e contou a história
Do seu antigo amor
Disse que a falta de planejamento
Fez do casal um poço de esquecimento

E agora, querida? Quem intervirá?
Nós dois cruzando a pé a BR-101
Bêbados, ao som de um sabiá
Querendo atingir horizonte nenhum

Ela olhou com olhos de ódio pra mim e disse
"Como fui orbitar em torno de um planeta tão morto?"
Eu apenas peguei a garrafa vazia de vinho
E joguei para longe, atingindo o último raio de sol
Ela teve educação, mas quer vender o corpo
Com atitudes de mulher que não finge
Ela pede carinho
Enquanto o parceiro pede o troco.
Ela se ajoelhou perante mim e disse
Que não queria mais viver daquele jeito
Eu não sou seu salvador, querida
Eu também carrego mágoa e desamparo no peito.
Ela podia jurar que tinha uma doença sem cura
Ela queria desaparecer com vergonha dos homens
Ela falava que não existia verdade nua
Ela se despia e dizia: "mesmo assim, eu sou sua".


(Rívison - 2009)