quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Cruz das Almas

Eu carrego a cruz desse amor, mas não é pesada
É algo bom de se carregar, me enche de harmonia
Piso na areia com ela, no meio da noite calada
Aquele sorriso tão sincero era tudo que eu queria.
O seu jeito me faz viajar sem tirar os pés do chão
Mas se meu coração não amasse, de nada valeria
E esse sentimento grita mais forte do que qualquer furacão
O toque das mãos dela me devolve a alegria.
Mas eu deixei minha alma longe, onde a maresia não chega
Eu deixei minha vida nas mãos de uma garota linda
Fico tão confuso com seus passos, ela é quase bailarina
Dança nas batidas do meu peito, ela é a minha guia
Me guiando pelo desejo que tanto eu desejava
Pegando nas minhas mãos de medo, medo que eu sentia
Medo porque nada acontecia, até ela aparecer
Minhas tintas pintavam uma aquarela triste, agora pintam magia.
Um pôr do sol ao seu lado, meu bem, não é o bastante
O bastante é viajar ao seu lado e do tempo ser vigia
Vigiar para ele não passar depressa e não me deixar atordoado
É tão bom estar abraçado com você no meio da ventania.
Encontrei nela um tesouro enterrado que há tempos procurava
Logo eu, que nunca entrei no mar pra fazer pirataria
Cavei nas profundezas daqueles olhos e enterrei meus segredos
Acabei achando uma emoção eterna, muito maior do que o ouro valeria.
Mas se um dia eu for embora, e ela ficar por lá?
Nas areias da Cruz das Almas, será que ela me veria?
Olhando para o horizonte do mar, contemplando o azul do céu
Tentando me achar numa manhã de sol, beirando o meio-dia.
Eu só lhe digo uma coisa, amor, não precisa me procurar
Pois só se procura o que não se tem ou o que se roubaria
Você não me furtou, você me tem legalmente como previsto na lei
Pois o bem mais precioso que eu tenho é a sua companhia.
Eu te levo no meu peito, na minha cabeça, no meu corpo
Eu te levo nos meus olhos e onde você não caberia
Você me ocupa do começo ao fim, se debruça no meu "eu" todo
O seu beijo e o seu abraço revigoram minha energia.
Nem que eu quisesse, eu não posso te deixar
Pois encontrei em você a felicidade que não é fantasia
E se a vida teimar em nos dar caminhos opostos
Eu junto nós dois pelo que sinto, passando por cima da geografia.



Rívison    28/11/2010

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Sei lá o quê





Na falta do que fazer
Fui dormir pra matar o sono
E essa sede de sei lá o quê
Meus instintos me deixam tonto
A alma aquece o vazio
Esquece que tudo é sombra
Mas enquanto a luz faz frio
As lembranças correm soltas
E é instintivo esse meu querer
De sei lá o quê
E esse meu rumo meio desarrumado
É, na verdade, eu dentro do meu quarto
Na falta do que dizer
Falei na língua dos anjos
Falei um palavrão
Falei algo que é entendido por poucos
A água esfria os ânimos
E mata essa sede de sei lá o quê
Esquece que somos banhados pela luz
E aí as dúvidas se misturam com o prazer.


Rívison           -            2008

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Solidão

 
Há momentos em que o convívio consigo mesmo
Chega a doer na alma
É como se o sol fosse embora mais cedo
É como se estivesse em um deserto sem água.
Andando por pântanos de desespero
Querendo apenas uma liberdade distante
Clamando por amor e por zelo
De corações frios e inconstantes.
A solidão, na melhor das hipóteses
É algo que amadurece o espírito
Nos deixa fortes, quando sobrevivemos
E cansados de sobreviver.
Então, vira essa garrafa, toma mais um gole
Que boa vontade é o que mais temos
O mundo é um cínico, e na pior das hipóteses
A solidão é algo que é pior do que sofrer.


Rívison  -  2009

domingo, 17 de outubro de 2010

Sobre o hipócrita religioso

Cristão de classe média alta com seu carro popular
Para justificar seus atos, você põe a mão na bíblia
"O poder de Deus habita em mim", você diz sem cansar
Xenofobia, machismo, homofobia, tudo ali se justifica.
Com sua roupa "da moda", você vai a algum barzinho
Para ter mais uma conversa vazia com seus amigos e amigas
Já na segunda cerveja, meio bêbado, profere um "se Deus quiser"
É tão hipócrita, que diz amar a todos, mas é individualista.
Só olha para si, e diz que Deus vai lhe dar o melhor emprego
É tão profano, que usa do romantismo chulo só pra fazer sexo
Tenta conquistar alguma acéfala que pensa igual a ele
Dizendo algo como: "O Senhor me fez ver os seus olhos tão belos".
Vai para a praia no fim de semana, ouvir as músicas que a mídia impõe
Quem tem um gosto diferente dele, está fadado ao inferno
Polui o mar com lata de cerveja, churrasco e palito de picolé
Mas tudo bem, ele está salvo e vai pro céu, pelo sacrifício de Cristo.
Ainda coloca suas "idéias" na política, fazendo do país um "paraíso"
É pra dar risada quando se diz comunista cristão ou pastor capitalista
Tão pautado nas crenças, e ignora, no sinal de trânsito, os meninos
Meninos que não são de classe média, não têm dinheiro, não têm vida.
Mas tudo bem,cristão de classe média alta, acéfalo e oportunista
Semana que vem vai ter mais um bacanal no seu show de forró preferido
Olhando assim, parece que não saímos dos costumes dos antigos romanos
Fé justifica a violência, e as sacanagens são todas escondidas.


Rívison - 2010

Obs.: Caro leitor, não costumo explicar meus textos, mas creio que este mereça uma explicação por tratar de um tema tão delicado como é a religião cristã. Perceba que não falo contra o cristianismo em nenhum momento e muito menos contra quem segue o cristianismo, ou seja, os cristãos. Falo contra quem se utiliza da fé cristã para cometer atos idiotas e violentos. Contra os hipócritas religiosos (como já diz o título). Para mim, pessoas deste tipo merecem, sim, as maiores críticas, para se conscientizarem de que a religião cristã não é sinônimo de retardamento mental. Já eu, parafraseio Zeca Baleiro, quando ele canta: "eu não sou cristão, eu não sou ateu".  Sinta-se à vontade para dar sua opinião, mas baseada nesta observação que reflete o que é este texto / poesia. Atenciosamente,

Rívison.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

A Metade

Se eu quase te amo, isso não é justo
Pois eu te amo pela metade
Amor não é dobrado ou fracionado. Que absurdo.
Uma gota de amor corresponde à totalidade.
Vejamos minha vida tão vazia e seca de sentimentos
Se eu ainda não te amo, estou quase
Mas essa insegurança redobra o pensamento
Tira de mim a emoção e me traz a realidade.
Camões, séculos atrás, previu que você viria
Mas não sabia que o amor não bastava de um empate
Uma partida de qualquer esporte, onde ninguém ganha
Um aperto no peito provocado por uma tola ansiedade.
E quem fará valer essa mera façanha?
De transformar dois corpos em um? Então sou metade.
Só não posso ser metade no que sinto ou no que penso
Pois para te completar, tenho que ser totalidade.
Um sorriso meia-boca seu já valeria meu dia inteiro
Se eu sorrisse com você, mesmo à distância, de verdade
Mas essa espera corrói meu sentimento e meus nervos
A esperança enferruja com medo de ficar no quase.
Então, meu amor, só temos uma solução
Vamos misturar esse sentimento com nossa força de vontade
Viajaremos, então, para os mais belos terrenos
Mesmo sem sair de casa, pois a viagem o corpo invade.
E, quando estivermos no fim, nos completaremos
Pois nossa rápida vida valeu pela eternidade
Não esperamos em vão a utopia de uma primavera no gelo
Fomos fogueiras um do outro como simples metades.


Rívison -2010

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Tão Breve











Como é grande
Como é temida
Como é oscilante
Tombos na avenida
Movimentada de carros
Como é brava
Como é covarde
Como são poucos
Os que se jogam nela de verdade
Como é inconstante
Como é sedutora
Como é sacrificante
Como é produtora
Como é adolescente
Como é idosa
Como é impaciente
Como é bondosa
Essa é a vida que nos serve
Batida no calor da vibração
Com mais violência do que amor
Aproveitar ao máximo e morrer com 27.
Como é constante
Como é pequena
Como é destoante
Como bicicletas de pessoas cansadas
Por pedalarem demais
Como é repugnante
Como é paciente
Como é maldosa
Nos deixando sempre para trás
Como é evolutiva
Como é Nietzsche e Marx
Como é Jesus e Joana D'Arc
Como é uma eterna ferida.
Essa é a vida aos 27
Batida no calor de um verão
Com menos potência do que amor
Aproveitar ao máximo esse momento que lhe serve.
Como é escritora
Como é analfabeta
Como é santa
Como é puta
Como é Marilyn Monroe
Como é Dostoiévski
Como é Madre Teresa
Como é uma luta (de um filme de Scorsese)
Como é breve
Como é profunda.
Como é pesada e leve
Como é confusa...


(Rívison)  2010

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Quem?

Quem foi que me deixou do seu lado?
Quem foi que me deixou fora dessa?
Quem apagou a luz do meu quarto?
Quem me deu um beijo na testa?
Ninguém descobriu nos meus lábios,
O maior tesouro da Terra,
Talvez isso se deva ao fato,
De que gostar de mim é gostar de uma guerra...

Por que tudo é motivo de festa?
Por que tudo é motivo de festa?
Por que tudo é...?

Quem foi que me deixou insensível?
Quem foi que me deixou insensato?
Quem foi que me deixou invisível?
Ninguém olha quando eu passo de lado...
Quem atrofiou o meu cérebro?
E transformou meus músculos em peças?
O ser humano ficou tão sério...
Deixando o mundo de lado, só ele mesmo o interessa;

Por que tudo é motivo de festa?
Por que tudo é motivo de festa?
Por que tudo é motivo de festa?
Por que tudo é...?

Quem foi que me deixou acordado?
Quem é a pessoa que tem tanta pressa,
Que grita na rua o assunto inacabado?
Quem se importa com tudo que resta?
Somos árvores sem folhas nem troncos
Apenas raízes com marcas de machado
Não crescemos, não é porque não queremos
Não crescemos porque o solo está estragado.


Rívison - 2007

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Atemporal 2



Vem correndo e sorrindo para mim
Porque é assim que eu lembro da sua energia
É assim que eu lembro do formato da sua boca
As lâmpadas do nosso palco iluminam boas pessoas.
Dá logo um abraço, e eu sempre fico com medo de me queimar
No calor dos seus braços
Na eterna canção de ninar
Que sai dos seus lábios.
Me queimo também no seu coração
Que é uma piscina em chamas
Eu provei minha coragem e saltei do trampolim
O fogo era ilusão, caí na água que fez tão bem a mim.
Dá logo um abraço, e aperta a minha mão
Estamos juntos nessa viagem pelo tempo
Eu vejo as rugas aparecerem em você
E você vê meus cabelos desaparecendo.
Olha para o sol enquanto me abraça
E tenha a consciência que esse chão um dia vai virar brasa
Tudo um dia vai ser o fogo ilusório concretizado
Mas o que vamos levar conosco é um oceano sereno e sem mágoas.



(Rívison)  -  2007

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Quarta Parte (4º parte da trilogia do pós-moderno)

Para fechar uma trilogia
Não são necessárias três partes
Porque, como já dizia Derrida
"Tudo depende de uma análise"
No mundo de palavras subjetivas
Um mamífero pode ser uma ave
A derrota pode ser invicta
E a trilogia pode ter quatro partes
As palavras são apenas símbolos
Imersos numa rede textual
São letras que não fazem escândalo
Quando algo parece ir muito mal
Por isso, leia as entrelinhas
Antes de ter uma idéia prévia
Pois os que passam despercebidos
Desobedecem a uma grande regra:
"Este mundo, que foi erguido
Com gritos e urros pré-históricos,
Hoje se move com inteligência
Pois separou o pensamento e o ócio
E para os analfabetos da semiótica
Deixo minha paciência queimando (como um fósforo)".


-Rívison-

sábado, 28 de agosto de 2010

Muitas Moradas (3º parte da trilogia do pós-moderno)

Eu vi aquilo descendo do céu
Era três e meia da madrugada
Silêncio profundo, a noite é como um véu
Que desliga realidade e não se vê mais nada
Aquela luz mudava de cor
Vermelha, preta, branca, amarela
Senti tranquilidade misturada com pavor
Para eles, eu sou apenas um inseto na terra
Mas aí eu lembrei da bíblia
E para os que não entendem a palavra
Jesus olhou para o povo e disse:
"Na casa do meu pai tem muitas moradas".
As moradas de irmãos diferentes
Que não são nem bípedes, nem gente
Que querem se apresentar, mas não tem como
É como se tentássemos nos comunicar com um cachorro
As palavras sagradas são palavras científicas
Cada religião do mundo tem um pouco de astronautas
Que desceram há muito tempo para serem vigias
De uma raça violenta que destrói flora e fauna
Para eles, eu sou apenas um grão de poeira
Mas aí eu lembrei dos livros hindus
Que falam de guerras celestes há milhões de anos
Provocadas por cidades flutuantes que vinham do sul
Aí eu lembrei dos apócrifos da bíblia
E para os que não entendem a palavra
Jesus disse tudo quando falou:
"Na casa do meu pai tem muitas moradas".
As moradas de irmãos que não respiram
As moradas de irmãos metade máquinas
Procurando algo no espaço que esteja vivo
Abduzindo as mentiras que aqui foram criadas.


- Rívison -

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Convivência em Rede (2º parte da trilogia do pós-moderno)

Encaminha-me esse e-mail tão querido
Digitado pelos teus amados dedos
Comandados por um juízo indefinido
Que expõe, sem culpa, seus medos
Sorri de frente ao brilho da tela
E percebe que ela te liga com tudo
Observa que ela virtualiza teu desejo
E que também pode te deixar confuso
Estamos perplexos e sem personalidade
Diante de um site que resuma essa esfera
Composta por água, terra, ar e fogo
O concreto perdeu o lugar para uma aquarela
Globaliza-me nesta última tendência de prótons
Que irradia pessoas através da luz
Portal para um paraíso dos cansados do mundo
Que só querem vestir um nick e jogar esse jogo
A mesa do bar agora é um fórum on-line
A escola agora é feita por textos de EAD
O motel agora é um mentiroso chat
E o cético moderno acredita no milagre que vê
Mundo confuso esse, cheio de parafernálias
Das quais eu preciso para matar minha sede
O sol nasce para mim toda vez que aperto o power
A vida é diferente nessa convivência em rede.


]Rívison[

terça-feira, 10 de agosto de 2010

O Disparo (1º parte da trilogia do pós-moderno)

Essa juventude, de tão velha,
Me dá cabelos brancos e agonia
A face no espelho se espelha
Em algo que um dia eu seria
O calafrio surge como um aviso
Um gesto é o bastante, mas eu paro
Diante de um mundo grande e avulso
Um revólver avesso ao instante do disparo.
A noite chega quente e escura
A solidão precede o dia claro
A timidez chega a ser uma tortura
Que faz dos desejos, meros escravos.
Alguém acende um isqueiro e fuma
A fumaça se espalha como um potente carro
E se dissipa como a vida de um jovem
A ampulheta da vida parece um cigarro.
Mas o dia é de praia, e não de tempestades
O sol ferve e os cabelos são molhados
O revólver disparou em direção a nossa idade
Mas a rebeldia faz a bala tomar sentido contrário.


[Rívison] - 2010

quarta-feira, 4 de agosto de 2010



















Enlatados

Olhamos pro céu na esperança
Que algo extraordinário desça e mude nossas rotinas
Especulamos o fim do mundo a cada dez anos
Na esperança de todos morrermos da maneira mais digna
Meu relógio parou; não era a hora dele parar
Logo nessa sala tão quente
A rua está deserta, mas as pessoas já saem de casa
E os pássaros torram no sol com uma canção em mente.

Olhamos pro passado na esperança
De descobrir algo extraordinário que mude nosso futuro
Planejamos o natal durante o ano inteiro
Na esperança do ano que vem ser diferente
Meu sapato desamarrou; não era a hora dele desamarrar
Logo à noite e nessa estrada tão longa
Rodeada por plantações de cana e montanhas
E as estrelas distantes fazem eu me sentir mais só.

Olhamos para estranhos na esperança
Que eles entrem na nossa vida e nos dêem um pouco de ânimo
Procuramos novas músicas na esperança
Daquele artista nos passar alguma emoção através do canto.
Meu avião está caindo; não era hora dele cair
Logo no meio do oceano, e eu não sei nadar
Talvez a explosão me mate antes, mas se eu sobreviver
Encharcado, vou ver o sol passear, até ele se pôr.

Olhamos pro futuro na esperança
De inventar uma máquina do tempo que mude nosso passado
Arrumamos vícios na esperança
Que aquilo nos dê prazer e o tempo passe mais rápido
Meu corpo está morrendo; não era hora dele morrer
Logo agora, que a vida fez sentido
A morte é por causas naturais, mas bate um arrependimento
De ter ido tão velho, e mesmo assim não ter vivido.


Rívison

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Redenção por um milésimo

Que vontade de encontrar um velho conhecido
E, nesse encontro, lembrar antigos fatos
E essa neve que cai no meu quintal é ilusória
Pois estamos no verão.
Tão bem agasalhado, está meu corpo
Mas, ainda mais, está o meu espírito
Não sou grato pela esmola que o mundo dá
Meu coração precisa de mais aventuras e menos consolação.
Sou grato por essa mola que me faz pular
O trato foi esse, amigo:
Viva até um certo ponto, e depois parta para o desconhecido.

O sorriso é o prêmio de consolação?
Depende do ponto de vista de quem sorri
A vida não pode ser uma fotografia
E muito menos um filme que acaba e volta a se repetir.
Eu não quero saber o que a vida pode ser
Eu não vim aqui para ser filósofo
Apenas use essa sabedoria
Desaconselho fingir que o hipócrita não sabe o que é hipocrisia.

(Rívison)

segunda-feira, 21 de junho de 2010

A máscara de um mundo falido

Sim, a mente já foi lavada
As palavras de antes agora perecem
Num campo minado, cercado de hipócritas
Desviando a atenção só para seus interesses.
Sim, ela já bebe cerveja
É tão nova, e daí?
A mídia empurra, sacia a sede
E o álcool salva outra empresa da falência.
Sim, a opção sexual foi trocada
Ele era tão feliz com alguém tão amado
Agora veste o mesmo disfarce
Força um sorriso, tão dissimulado.
Sim, a mente já foi lavada
Está tudo em ordem, o rio está correndo
O rio está salvo, o rio podre
O rio chamado sociedade.
Sim, a ordem foi estabilizada
Jesus a cada dia é crucificado novamente
Como podem palavras tão lindas roubarem mentes
Para um capital sujo, que não se importa com a gente?
Sim, a mente já foi lavada
O pai durão mandou seu filho pra o exército
Seu filho morreu, honrou a pátria?
Não, honrou a bolsa de valores.
Circo de horrores, casa do espanto
Rostos sorridentes, mundo decadente
Sorrisos que não demonstram sentido.
Norte ou sul? Para onde vai aquele mendigo?
Quem se importa?
Circo de horrores, casa do espanto
Quem tem coragem de ter um filho?
Quem se encoraja a deixar algo aqui vivo?
Mas está tudo em ordem, o rio está correndo
Movido por sangue
O rio está salvo, o rio podre
O rio chamado consumismo.


[Rívison]

domingo, 6 de junho de 2010

Orjana (Gran Madre de la Tierra)

Debrucei-me na janela
Olhei para baixo, vi as formigas
Por eu ser tão grande para elas,
Elas nem me percebem.
Ela abriu sua janela celeste
Olhou para mim lá de cima
Por ela ser tão grande para mim
Eu nem a percebo.
É impressionante
como a ignorância
nos diminui,
É impressionante
como o orgulho
nos cega.
Debrucei-me na janela
Olhei de lado, vi garotos pedindo
A tv diz que eles são perigosos
Fechei a janela, como se nada tivesse acontecido.
Um deles olhou pra mim
No instante que eu não queria mais olhar
Um garoto tentou dar um sorriso
Mas não tinha ânimo para dar.
É impressionante
como a fome
nos deixa frios,
É impressionante
como a frieza
nos afasta.
Debrucei-me na janela
Olhei mais na frente,
Vi minha sombra
E constatei que eu era só aquilo.
Lembrei meu passado
Pensei no futuro,
Sou um quadro quebrado
Sou a incerteza do mundo.


[Rívison]     Outubro/2006

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Dezembro. O primeiro ensaio sobre a saudade.

- Você me espera?
- Não.

Eu ainda te aguardo, não porque nossas vidas estão longe
Mas pelo o que seus sonhos representaram para mim
Pelo que seus olhos me fizeram ver
E sua boca me fez ouvir.
Eu ainda te aguardo, não porque foram feitas promessas
E sim porque é você que não esqueço toda vez que vou dormir
É de você que eu lembro toda vez que eu acordo
E porque foram de poucas palavras e muita atitude nosso encontro.
Eu ainda te aguardo, pelo que diz meu coração
Eu, que não acreditava em amor e paixão, me vi perdido em você
Poucos dias foram o bastante para me convencer disso:
Respeito, amizade e atração é igual a amor infinito.
Eu te espero, pelo medo que tenho de te perder
Porque só você me fez ficar sem ar quando pensei em te esquecer
Só você me faz recordar coisas mínimas que duraram tão pouco
Mas ficaram cravadas na pedra dura e gelada dos meus sentimentos.
Eu ainda te aguardo, mesmo você dizendo que não
Mesmo tentando me convencer que o melhor é fazer ao contrário
Deixar de lado tudo que dissemos e viver cada um no seu canto
Por que viver como árvores, se podemos ser pássaros?
Eu ainda te aguardo, como quem lembra de um sonho antigo
Como quem quer percorrer um caminho distante
Como quem deseja ter o impossível, mas mesmo assim...
A felicidade em mim só existe porque eu penso em você a todo instante.


Rívison     2010

domingo, 4 de abril de 2010

Daqui a mil anos.

A esta altura, já crescemos
E nossas flores já brotaram
E nossa esperança já morreu
Junto com a vida nos campos

A esta altura, não sobrou o que fazer
A árvore cresceu o que tinha de crescer
A poluição já não faz mais a diferença
E a criança não transmite a esperança

A esta altura, já sumimos desse mapa
Não temos mais dinheiro e nem temos casa
Sorrisos só os dos esqueletos no chão
Sentimentos voam no vento seco sem coração

A esta altura, os escombros são dominantes
Os peixes só nadam em grandes profundidades
As aves não voam, mas não perderam as asas
Os insetos vivem em buracos embaixo da terra

A esta altura, não existe mais tecnologia
Nossas mentes brilhantes já viraram adubo
Adubo para nada, porque nada mais nasce
Nossa póstuma contribuição não serve pra nada

A esta altura, não há mais América
Nem Europa e nem Ásia e nem Oceania
Só a mãe África chorando chuva e fogo
De luto, porque perdeu todos os filhos

A esta altura, não há socialismo
Nem capitalismo e nem anarquismo
Não há mais terrorismo ou guerras
Os ideais repousam embaixo da terra

A esta altura, não há mais meus netos
Nem cartas dentro de garrafas no mar
Não há mais barcos nem aviões no ar
Carros enferrujados esperam pela partida

A esta altura, as religiões freiaram
E o messias não apareceu para o mundo
Os cachorros já não são domesticados
Há apenas o silêncio que o amor deixou.


Rívison Batista  -  2008

domingo, 21 de março de 2010

Ensejo




Condenado a viver nessa geleira
Vi uma foto de Baudelaire, ele não estava feliz
Derrete, geleira, derrete!
Quem pensa ou sente muito sempre é feliz por um triz
O sorriso de dentes podres cativou a moça rica
O coração era nobre e a estrada era perdida
Afinaram um violão, tocaram a música da morte
Mas a moça não quer saber mais, se é morte ou vida
Tanto faz.
Condenado a não dividir a geladeira
Vi uma foto do Poe, ele não estava sério
Desliga, geladeira, desliga!
Quem corre ou anda muito sempre volta para o ponto de partida
Tocaram a campanhia, talvez seja a sorte
Mas a moça não quer saber mais, se é sorte ou acaso
Tanto faz.
E tanto fez que hoje pensa e sente muito e é totalmente feliz
Corre a vida inteira e encontra novos caminhos
Ela arriscou quando todos disseram-lhe que não
O sorriso de dentes podres se transformou em um diamante de carinhos.


(Rívison)

terça-feira, 2 de março de 2010

Cibele

 





Creio que alguma estrela brilhou
Instantes depois que você se foi
Bruta beleza de olhos verdes
Estonteantes palavras de amor
Limpei minha alma com seus conselhos
Escrevi certo por linhas tortas
Por que a vida é cruel com os bons?
Ainda não sei a resposta...
Rasguei nossas cartas quando vi as flores que lhe mandaram
Ainda era noite, perto de amanhecer o dia
Segui, então, os meus próprios passos
Esqueci de tomar o remédio contra aquela alergia
Mas você me curou de tantas coisas
Patético, eu fico sem você, sem forças
Rapidamente o mundo gira e o tempo passa
Enquanto os oceanos nos dão tristeza e graça.


[Rívison]

[ Isso é uma singela homenagem a uma grande amiga. Loira, essa é pra vc. Sua falta é enorme. Devia ser proibido pessoas especiais como vc irem tão cedo. Fique em paz, onde vc estiver. Levo seu afeto e suas palavras até o fim da estrada da vida e, quem sabe, além dela.]

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Barulho das Ondas

Eu me identifico com seus olhos
Desde que o começo dos anos 90
Prometeu ser o raiar do sol da internet
E qualquer coisa que a gente inventa
Sempre resulta em algo inerte

Tudo bem, não faz tanto tempo que penso em você
Eu menti, mas não pequei, pois foi por uma boa causa
Eu tentei aproveitar uma tarde de domingo
Mas o mar estava bravo e a maresia estava forte
Os vizinhos ainda dormindo me deram a idéia de uma vida falsa

Lá vem a manhã de segunda, e esse inconformismo não sai de mim
O barco sempre afunda para quem não tem um destino a seguir...

Eu me identifico com seus olhos
Tudo bem, é uma grande verdade
Mas eu nem te ligo para dar bom dia ou boa tarde
Seria genial fazer isso enquanto estamos sóbrios
Pois a vida nos embebeda à medida que passam-se os anos

Se eu disser que não penso em você
Pelo menos vinte vezes por dia
Eu vou parecer um clichê de idiota
Nada sincero, super orgulhoso
E que apenas consegue atrair antipatia

Tudo bem, eu não sou um exemplo a ser seguido
Nunca, nem sequer, salvei algo ou a mim mesmo
Apenas aprecio o barulho das ondas
Sendo rasgado pelo sol penetrando o céu com cores
E fazendo o dia parecer um "faz de conta".


Rívison

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Quando a garota de Seattle conheceu o Brasil



Eu não sabia que Alice tinha sido acorrentada
Até ouvir um som no jardim
Pássaros cantando músicas estranhas com asas deformadas
Para acordar essa nação de zumbis
Ela correu e foi ser religiosa
Entrou no templo do cachorro
Mas qualquer caminho pode ser delirante
Caindo num buraco profundo com voz de choro
Seguiu o coelho e veja no que deu
Sentiu tanto prazer que atingiu o nirvana
Namorou com o cabeça de rádio
E pensava "ele me ama",
Quis até correr o mundo e chegou num deserto
Pisou em abóboras esmagadas, cavou sua sepultura
Desconfiou que havia um oásis por perto
Desconfiou que vivia uma explosão de culturas
Raimundo lhe mostrou o caminho das águas
Charlie deu a ela um skate
Ela só queria um mundo livre
Ela só queria injetar vida nas células
Ela nunca se esqueceu do conselho do sagaz homem fumaça:
"No final, tudo termina numa geléia de pérolas".


[Rívison Batista]

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

O Advento






Quero um instante de concentração
Para eu entrar em sintonia comigo mesmo
Para eu olhar para dentro do meu mundo
E salvá-lo de mais um apocalipse...

Quem tatuou esse sorriso no meu rosto?
Quem deu alucinógenos ao meu coração?
A cada dia que passa o mundo suga minha fé...
E um apaixonado pensa que é feliz...

Quero um instante comigo mesmo
Para curar meus órgãos enfermos
Para curar meus olhos vermelhos
Das lágrimas de tédio que regam o chão,

Quero um instante sem erros
Para curar meu coração ferido
Para sobre quem eu gosto, ter mais zelo
Para quando eu olhar pra você, que a tristeza do céu nublado se destrua
E dentro de mim surja o verão.

(Rívison)