quinta-feira, 12 de junho de 2008

Onde dormem as âncoras

Meus olhos cansados não esperam nada de genial
Minha boca seca já não tem esperança de encontrar água nesse deserto.
Os costumes evoluem e viram tradições,
Eu não os acompanho e fico tão desatinado
As máquinas evoluem e substituem os corações,
Eu acho que nasci no lugar errado.
Meus olhos cansados encontraram você
Nesse inverno, nesse frio, e a minha boca,
Bebe em você a esperança de dias melhores

Quem diria que, de semanas tão mortas
Algo surgisse em forma de carne, alma e força
Algo que deu o combustível certo a sentimentos velozes.

Meus olhos cansados enxergam tudo tão mal
Rabiscos perdidos no quadro da vida
Distorção magnética da minha polaridade
Minha cabeça revirou-se como alguém que contempla, ao meio-dia, a cidade natal
Quando tudo já era sem cheiro, os rabiscos da minha miopia
Exalaram um perfume irreconhecível, antropofagia de mim mesmo
É cedo, te conheci ontem, mas já te conheço faz tempo
Parece que tem alguém se tornando meu veneno vital
E eu que não queria ser envenenado agora
Mordida de cobra
Não, pior, estado de encantamento.

(Rívison) 28/04/2007 02:53 am

terça-feira, 10 de junho de 2008

Um Diálogo




E se a noite não tiver mais fim?
- Eu vou pra internet.

E se seu medo do escuro não acabar?
- Eu dou um abraço nele e vou ser feliz.

E quando as pessoas ao redor rirem?
- Eu vou rir junto com eles, como um pivete.

E quando a madrugada demorar a passar?
- Eu vou acordar a pessoa que mais amo.

E se a pessoa que você ama não existir mais?
- Eu vou dormir pra sonhar com ela.

E se você não conseguir dormir?
- Eu vou olhar as estrelas pela minha janela.

Por que você vai fazer isso?
- Porque a pessoa que amo virou uma estrela que ilumina a Terra.

E se a chuva cair?
- Eu subo por uma escada e passo as nuvens.

E o que você verá lá de cima?
- Verei a janela do meu quarto entreaberta.

E o que verá quando olhar pra cima?
- Verei a pessoa que eu amo mais de perto.

Tão perto que vai poder escutar sua voz?
- Sim.

E o que ela vai lhe dizer?
- Que o mais certo é eu ficar lá embaixo
Onde eu encaixo minha vida nos planos
Onde eu desato e formo laços e nós
Onde a luz dela sempre vai estar do meu lado.

(Rívison Batista) 18/05/2008 02:05 am

sexta-feira, 23 de maio de 2008

Algo doce na tarde de verão

A madrugada irrompe outras forças
Eu sonho acordado pensando em algo bom
De olho aberto, sentindo a brisa da noite
Eu tenho o dom, qualquer um o tem
Angústia, antes fosse
Meu amor nunca partiu de trem
Porque ainda não chegou.
E eu teimo em escutar algum som
Algum som que vem não sei de onde
Se eu abro a janela, não escuto nada
Ele vem de dentro de mim.
O crepúsculo surge cozinhando meu espírito
Sou algo tão rígido
Que me esqueci de simplesmente "ser"
Aprendi a ser tão crítico
Que quem não presta é só você.
Maçãs frescas, eu queria
Para matar minha fome e sede
De algo doce;
Desilusão, antes fosse
Meu amor não me desiludiu
Porque eu nem cheguei a amá-lo
Uma abelha que da colméia fugiu
Porque se cansou de ser doce e quer provar do amargo.
Quem não se sente assim?
Mas a madrugada irrompe outras forças
E o crepúsculo aparece fervilhando o meu ser.
De olho fechado, sentindo a brisa quente
E à tarde, voltar ao doce, depois de se arrepender.

(Rívison) 17/12/2006

sábado, 10 de maio de 2008

Monogamia




Toda essa monotonia me cansa
Toda essa monotonia
Seguida de monogamia
E, quem descansa, é o passado
Mas estamos tão vivos,
Então somos presentes.
Toda essa monotonia me cansa
Toda essa monotonia
Seguida de monogamia
Seguida de conselhos certinhos
Seguida de regras fascistas
Seguida de ordem e progresso
Seguida de falsos sorrisos
E, quem descansa, é o passado
Mas estamos tão vivos,
Então somos presentes.
Toda essa monotonia me cansa
Toda essa monotonia
Que tem medo de poligamia
Seguida de jardins fechados
Seguida de fardas militares
Seguida de proibição
De todos os tipos.

Que tamanha alegria se faz
Dentro da monotonia de uma noite
A monotonia é um efeito colateral
Da fantasia invisível que vestimos todo dia.

Rívison Batista 10/05/2008

sábado, 19 de abril de 2008

Oito Anos

Adeus, e a gente se vira depois
Pra arrumar outro pedaço de lar
Concreto e tão sujo sou eu
Adeus, e a gente se vira depois
Peguei na sua blusa
Peguei um comprimido
Acendi um cigarro
Sim, baby, agora eu sou viciado.
Talvez, você não compreenda
Eu também não faço muita questão
Apenas traga o vinho daquele cálice
Apenas traga as manhãs da minha infância
Tudo isso em forma de prazer, carnal ou não
Lembranças.
Colei um adesivo
Toquei o violão
Acendi minha raiva
Sim, baby, agora eu sou irritado.
Talvez, você não me conheça
Eu também não faço muita questão
Apenas esbarre seu ombro no meu
Apenas entre em contato comigo
Tudo isso em forma de segundos contados
Em algum dia dos meus oito anos
Transformados em estudo e trabalho.
Sim, baby, agora eu sou dependente.
E você me pergunta de que
Eu sou dependente do cheiro
Do som, da luz e das mãos da minha mãe me acordando.
Naquelas manhãs dos meus oito anos
Quando eu não queria perder um desenho.
Sim, baby, agora eu sou viciado.


(Rívison Batista) 16/04/2008

domingo, 13 de abril de 2008

Epigrama Passional nº 2

Tem horas que ficamos sedados

A anestesia fez efeito e quem diria
O sono chegou como uma ex-namorada
Iludindo com seus sentimentos de mentira
Lá vem o dia, e ele vem com a força de uma máquina
Arrasta tudo, embaixo e em cima
Nosso rosto matinal é uma lágrima
Que cai dos olhos da nossa desunião.
Coração fingido, tão solitário
Coração que não gosta de mim
Ele bombeia meu sangue e como salário
Eu lhe dou uma emoção inacabada.
Tem horas que vemos o que não existe
E o que existe, deixamos de ver
Demora pra cair a gota da realidade
Impulsionada por dor, lamento, alegria e vontade
Mas o teatro ao ar livre tem um novo espetáculo
Saltadores mortais com movimentos errados.

(Rívison Batista) 17/09/2007


A inocência do sol

Vi uma atriz de olhos verdes
Minto, verdes eram as lentes
Ela tinha olhos castanhos
Como o entardecer em um campo ameno.
O sol, todo dia, desvia-se dos nossos tiros
E da nossa arrogância, e, quem diria,
É visto lá em cima, na máxima potência
E, com toda inocência, mostra sua exuberância.
Eu não quero ser mais nada na vida
Só quero que você seja minha atriz
E que seja banhada pela inocência do sol
Ao meu lado.
Eu poderia falsificar e ganhar milhões
Eu poderia me matar de trabalhar
Ações e testamentos, subir até ninguém me alcançar
Mas que bobagem, a minha ambição é você.
Dançar em qualquer palco, em um beco escuro
Ou para uma platéia de fidalgos
Eu não sei dançar, mas ainda assim
Nós bailamos nesse último tango ou samba ou valsa.

É bem verdade que você surgiu por acaso
Como surge a árvore em uma floresta, deixando a saudade
Aos que viam aquele lugar vazio
E agora é ocupado por vida, e a nossa é tudo que nos resta.

(Rívison Batista) 25/03/2007 03:16 am